Um lado positivo de Eike Batista – agora que ele foi preso


Resultado de imagem para eike batistaJá inicio dizendo: sou fã do Eike Batista.

Muito me incomoda a crítica fácil de quem diz como o Politik Café (veja aqui) suas empresas nada ou quase nada produziam.

Incomoda muito menos, por outro lado, quando um jornalista sensato e bem informado como o Fernando Dantes que chama Eike do falso herói capitalista (veja aqui ).

De fato suas falhas em levar até o fim seus projetos e pecados éticos e penais na governança corporativa de suas empresas merecem realmente todas as críticas que tem sido associadas a ele. Mais sobre isso veja aqui.

Com base em tudo isso fica a pergunta: quais as lições podemos tirar do fenômeno Eike Batista?

De fato o Brasil tem um capitalismo ainda muito jovem – tal e qual nossa democracia. Nosso capitalismo não é maduro o suficiente e nossa cultura nacional não favorece os negócios.

É raríssimo um empresário falir e se recuperar em nosso país. Ao contrário do que acontece nos países ricos onde a legislação e a cultura local permitem tal movimento. Exemplo pronto e acabado é o caso de Donald Trump que já quebrou 2 ou 3 vezes e mesmo assim conseguiu se recuperar, além eleger-se presidente dos EUA.

Está profundamente enraizado o entendimento de que para crescer no Brasil os empresários ou são políticos ou tem fortes conexões com a classe política. Aquilo que os estudiosos chamam de “capitalismo de compadrio” (mais sobre isso aqui).

Já foi dito que no Brasil falta consolidar a figura do empresário que venceu por seus próprios méritos (o self made man), vindo de uma situação social desfavorecida de início até atingir o sucesso no mundo dos negócios. Por razões históricas o imaginário popular associa a riqueza patrimonial com relações com o Estado.

Exemplos existem, mas ainda são poucos. E nesse contexto precisamos falar de Eike Batista.

Os críticos (e são muitos) atribuem o sucesso de Eike Batista unicamente às relações com o poder político.

  • Seu pai, fora presidente da Vale no período da Ditadura Militar e teria tido acesso a informação privilegiado sobre o setor mineral.
  • Sem o BNDES e seus juros camaradas o Eike não teria conseguido nem começar – essa aqui um tema altamente recorrente.
  • Foram suas relações e não sua competência que permitiram seu crescimento avassalador, inclusive como afirma Fernando Dantas.

Difícil precisar exatamente o motivo do sucesso (ainda que passageiro) de Eike e atribuí-lo somente a uma dessas variáveis acima. O razoável é que vários fatores somados permitiram sua ascensão no meio empresarial.

Como todos estão demonizando suas condutas e exaltando seus fracassos, me proponho a analisar algo diferente: o que Eike Batista, este símbolo empresarial brasileiro, deixou de legado e contribuição para o mundo dos negócios?

Temos então que enfrentar alguns mitos sobre sua figura.

Mito 1. Sem BNDES nada teria acontecido

É verdade que suas empresas conseguiram empréstimos. Mas o brasileiro tem demonstrado uma verdadeira fetichização do papel do BNDES no cenário econômico atual.

O BNDES empresta a grande maioria da sua grana não diretamente aos empresários, mas sim indiretamente via bancos intermediadores. O BNDES repassa essa grana a outros bancos (BB, Itaú, Bradesco, Caixa, Santander, etc) que analisam novamente o cliente em questão e decidem se emprestam ou não o dinheiro. Esse banco intermediário cobra um juro em cima do juro do BNDES para remunerar sua prestação de serviços e também porque esse banco intermediário assume o risco de crédito do cliente. Isso significa exatamente o seguinte: se o empresário que pega esse dinheiro emprestado não paga o financiamento quem fica com prejuízo não é o BNDES e sim o banco que intermediou a negociação.

Isso é importante dizer porque muitos pensam que o erário público está sendo lesado com esses empreendimento que não dão certo. Nada mais distante da verdade.

Outro ponto. Eike atuava em setores de comodities (minério, aço, petróleo, gás, etc) e infraestrutura no Brasil (porto, dutos de transportes, etc). Setores onde tradicionalmente o BNDES atua emprestando dinheiro. Empresas gigantes como AMBEV (no setor de bebidas), Vale (mineração), ALL-RUMO (ferrovias), dentre muitas outras, pegam empréstimos no BNDES e atuam em setores semelhantes sem maiores questionamentos éticos.

Ponto 2. Enganou investidores vendendo apenas sonhos

Nosso capitalismo ainda é jovem. Em países maduros é comum empreendedores levantar capital com investidores privados para levar adiante projetos arriscados.

O que Eike Batista fez foi ser pioneiro no Brasil nesse setor. Fez o que ninguém conseguiu fazer em grande escala antes dele. Ele verdadeiramente abriu essa janela que antes não existia. Seus críticos dizem que ele abriu essa janela e seu fracasso a fechou logo em seguida.

Num período de extrema liquidez internacional, as comodities atingindo valores recordes, Eike Batista era a pessoa certo no lugar certo. Suas empresas se propunham a explorar riqueza em que o Brasil sem foi extremamente competitivo (minério, aço, petróleo, gás, etc).

Seus projetos tinham grana de bancos de fomento (como o BNDES), bancos privados, mas também tinha grande proporção de capital privado vindo de investidores qualificado (fundos de pensão, fundos soberanos, mega corporações, capitalistas de risco, etc.) e também pequenos investidores.

Levantar capital na bolsa com investidores privados do Brasil e do Mundo é algo que deve ser elogiado e incentivado no país. Porém é fundamental ter responsabilidade, lisura e transparência ao lidar com o dinheiro de terceiros. Nesse ponto Eike deixa bastante a desejar.

Novamente repito. Suas falhas em levar até o fim alguns de seus projetos, além de pecados éticos e penais na governança corporativa de suas empresas merecem realmente todas as críticas que tem sido associadas a ele. Mais sobre isso veja aqui.

Nesse tópico, portanto, Eike serve de exemplo positivo ao conseguir a proeza de levantar grande monta de capital com investidores no mercado de capitais e de exemplo negativo por sua conduta em termos de governança corporativa e execução de projetos.

Mito 3. Seus projetos nada ou quase nada produziram.

Aqui adiciono um áudio gravado hoje sobre 03 empresas de Eike Batista que são exemplos de que seus negócios geraram resultados positivos.

Uma delas a antiga MPX, chamada atualmente de Eneva, com suas termelétricas associadas as poços de gás natural produz bons resultados.

A PRUMO, antiga LLX,  e seu mega porto na Região de Açu no Rio de Janeiro, tem muito potencial  ser explorado e certamente irá ajudar o Brasil no futuro.

A MMX, que foi fatiada e vendida parte dela para Anglo American, foi um projeto altamente inovador e encontra-se em dificuldades pela redução do preço das comodities.

Resumo da Obra

Eike Batista não é o exemplo de herói capitalista que venceu na vida. Inclusive porque seu patrimônio líquido hoje é negativo como ele mesmo diz. Importante frisar que ele ainda mantém pequena participação em alguns projetos que em caso de forte valorização pode fazer com que recupere alguns milhões.

Mas é importante que se reconheça que tomou elevada quantidade de risco e enriqueceu absurdamente em rápido intervalo de tempo. Desenvolveu inovações fundamentais que certamente serão bem aproveitadas no futuro. Criou modelo de sucesso em setores importantes (para mais detalhes escute o áudio acima) e inspirou várias pessoas a fazer coisas grandiosas. Soube atrair técnicos e funcionários competentes com pacotes vantajosos de remuneração. Trouxe agitação a mercados em verdadeira letargia há décadas. Enfim, deixou uma marca.

Alguns negócios deram muito certo, outros negócios deram muito errado (como seu maior negócio a petroleiro OGX) e outros ainda tem potencial a ser explorado.

É imperioso registrar porém que bilhões de reais foram investidos em seus vários empreendimentos. Com toda a crítica que se faz a ele seria incorreto, no meu modo de pensar, afirmar que seu sucesso se deveu basicamente a suas relações com autoridades públicas e benefícios indevidos. Foi um empresário arrojado, inovador, agressivo e extremamente ambicioso. Provavelmente esta última qualidade também era um grande defeito, como acontece tantas vezes.

Aqui não se busca minimizar seus erros e pecados, se tentou apenas mostrar um outro lado da figura pública que agora vai enfrentar a justiça e a exposição midiática tradicionalmente negativa quanto a sua pessoa.

Thiago Silveira

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