Como Apple e Samsung iniciaram a longa batalha judicial por violação de patentes


O caso Apple versus Samsung já dura alguns anos e não chegou exatamente a uma conclusão – nos EUA, a Samsung foi condenada a pagar mais de US$ 1 bilhão para a Apple, mas esse valor foi diminuído algum tempo depois. Em outras partes do mundo, o lado vitorioso foi a Samsung. De qualquer forma, as empresas ainda brigam nos tribunais: a Apple acusa a Samsung de ter violado patentes no desenvolvimento do Galaxy S e do Galaxy Tab, entre outros dispositivos.

A edição de junho da Vanity Fair (que já foi lançada) traz uma longa reportagem detalhando essa disputa – e mostrando também como a prática de simplesmente copiar um dispositivo concorrente e iniciar uma guerra judicial de quebra de patentes é algo comum no mundo da Samsung.

A disputa entre as empresas começou em 2010. Em março daquele ano, a Samsung apresentou seu Galaxy S, novo smartphone topo de linha que foi muito bem sucedido e iniciou a linha Galaxy S, atualmente no seu quinto modelo e com mais de 200 milhões de aparelhos vendidos pelo mundo. Até então, a Samsung era mais uma no mercado de smartphones e pouco se destacava.

Quando Steve Jobs viu o Galaxy S pela primeira vez, diz a Vanity Fair, ficou furioso. Afinal, era uma importante fornecedora de peças para a Apple – a Sammy fornece até hoje processadores, telas e outros componentes para os dispositivos da Apple – que, na visão de Jobs, havia simplesmente copiado o iPhone.

Jobs lembrou de todos os anos de desenvolvimento secreto do iPhone e a dificuldade para evitar vazamentos – Scott Forstall só pôde trabalhar com funcionários da Apple na criação do smartphone, e muitos deles foram levados ao projeto sem saber do que se tratava. Pensar nisso tudo e ver um smartphone concorrente que se parece tanto com o seu não deve ser nem um pouco legal.

O então CEO da Apple mandou Chip Lutton, conselheiro geral de propriedade intelectual da empresa de Cupertino, para uma reunião com executivos da Samsung. Lutton apresentou slides mostrando as semelhanças entre os dois dispositivos. A conversa entre eles foi mais ou menos assim, de acordo com a Vanity Fair:

“O Galaxy copiou o iPhone”, ele [Lutton] disse.

“O que você quer dizer com copiou?” [o vice-presidente da Samsung, Dr. Seungho] Ahn respondeu.

“Exatamente o que eu disse,” insistiu Lutton. “Você copiou o iPhone. As semelhanças estão muito além da possibilidade de coincidência.”

Ahn não gostou daquilo. “Como você se atreve”, ele retrucou. “Como você se atreve a nos acusar disso!”. Após uma pausa, ele disse, “Estamos desenvolvendo celulares desde sempre. Temos as nossas patentes, e a Apple provavelmente violou algumas delas.”

O que Ahn deixou claro é que, se era uma guerra o que a Apple queria, era isso o que teria. Se ela seguisse em frente com as acusações de plágio, a Samsung contra-atacaria. E, de acordo com a Vanity Fair, essa é uma prática comum pelos lados da Samsung.

A Samsung é uma das empresas com mais patentes no mundo, e ela não tem medo de usá-las para ameaçar concorrentes. Não para processar quem por acaso viole alguma das propriedades intelectuais – e sim para contra-atacar caso alguém a ameace de processo. Aparentemente, a Samsung gosta de ignorar patentes de concorrentes, e, quando alguém reclama, ela segue os mesmos passos que fez no caso da Apple: contra-ataca e adia um possível acordo. Perde no tribunal, adia um possível acordo novamente. Apela, e assim adia novamente um acordo. Quando está prestes a ser derrotada definitivamente, senta para firmar um acordo.

A prática atual é essa – usar a própria base de patentes como rede de proteção para violar patentes de outras empresas e ter como contra-atacar caso alguém a processe, e, enquanto isso, ganhar seu dinheiro vendendo seus dispositivos. Mas no passado – e nem é um passado tão distante assim – a Samsung fazia muito pior.

Desde a década de 1990, a Samsung formava cartel de preços com fabricantes de TVs – inicialmente de tubo, depois LCD – para lucrar mais com a venda das telas. Essa prática durou até meados dos anos 2000. Em 2006, para ser mais preciso, as empresas que formavam o cartel começaram a desconfiar que uma das vítimas dos preços elevados havia descoberto que estava sendo lesada. Era uma empresa norte-americana poderosa conhecida como Apple Inc. A Samsung correu para o Departamento de Justiça dos EUA e entregou suas comparsas para evitar uma investigação que a prejudicasse, mas não escapou de pagar multas milionárias pelo mundo inteiro. Depois disso, a Samsung diz ter adotado políticas mais éticas e legais. A disputa por patentes não é ilegal, mas é extremamente cansativa para os dois lados.

Em 2010, quando o iPhone era um enorme sucesso e a Samsung era apenas mais uma no mercado de smartphones, seus executivos perceberam que algo deveria ser feito para mudar isso. Em fevereiro daquele ano, fizeram uma reunião e criaram um grupo para verificar o que havia de diferente nos dispositivos da Samsung e nos da Apple. A conclusão foi que o iPhone era superior em praticamente tudo. Eles deixaram então de usar a Nokia como referência para desenvolver celulares e passaram a se inspirar na Apple. Quando o Galaxy S foi apresentado em março daquele ano, ficou bem claro que eles se inspiraram até demais.

Mas, em meio a todo esse caso, mesmo que as empresas ainda estejam brigando, a Vanity Fair lembra que um dos lados já pode se considerar vencedor: a Samsung.

Não importa o resultado financeiro, a Apple pode muito bem sair da disputa legal como perdedora. Dois júris descobriram que de fato a Samsung planejou roubar a aparência e tecnologia do iPhone, e é por isso que, em 2012, um júri na Califórnia decidiu que a Apple deveria receber mais de um bilhão de dólares em danos da Samsung (reduzido para US$ 890 milhões em 2013 após um júri descobrir que alguns cálculos eram defeituosos). Mas, conforme o litígio se arrasta, a Samsung conseguiu aumentar a sua participação no mercado (atualmente 31% contra 15,6% da Apple), não apenas por seus dispositivos “com cara de Apple, mas mais baratos”, mas também com suas próprias criações tecnológicas e produtos inovadores.

De fato, a Samsung se deu muito bem com o Galaxy S e hoje é o grande nome do mercado de smartphones. O lançamento da sua linha Galaxy S já é quase tão esperado quanto um novo iPhone – e, mesmo que a reação inicial não seja tão positiva, os números de vendas são sempre enormes. A Samsung encontrou o caminho para crescer – e, para isso, precisou incomodar (e muito) a Apple. Você pode ler a extensa, mas excelente reportagem, no link a seguir: [Vanity Fair]

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