Desigualdade na educação entre pobres e ricos


Algumas observações sobre estudo do sociólogo e pesquisador americano Karl Alexander discutidas no livro Outliers: Fora de série de Malcom Gladwell.

Esse estudo traz uma explicação inovadora sobre a “disparidade de aprendizado” entre alunos pobres e ricos – principal causa da desigualdade social e de renda. Problema este que vem se agravando nos EUA e que ainda é característica marcante da sociedade brasileira.

Foram realizados testes padronizados na cidade Baltimore nos EUA com 650 estudantes da 1a a 5a série para medir suas habilidades de leitura. No final de cada ano letivo, verificou-se as notas que estão representadas no gráfico abaixo, segmentado por classe social dos estudantes.

Nota dos alunos ao final de cada ano letivo

image

Observando o gráfico podemos perceber que as habilidades dos alunos em leitura estão aumentando a cada ano de estudo. E também que os alunos ricos possuem um nível de habilidades mais alto do que os alunos mais pobres ao final do período. Por fim que a diferença pequena no início aumenta a cada ano. Na 1a série, a distância entre os alunos pobres e ricos era de 32 pontos, já na 5a série a diferença chegou a 72 pontos. Um retrato perfeito de desigualdade educacional.

Além dos testes aplicados no fim ano escolar – tradicionais em todos os sistemas de ensino – foram aplicados testes no início de cada ano. Feito isso para buscar responder duas perguntas fundamentais:

  • Quanto os alunos aprenderam durante cada ano letivo?
  • Quanto os alunos aprenderam durante cada período de férias?

Veja a seguir o progresso dos alunos durante o ano letivo. A tabela mostra o aumento das notas desde o início das aulas até o fim do ano.

Aprendizado durante o período letivo

Classe 1a série 2a série 3a série 4a série 5a série Total
Baixa 55 46 30 33 25 191
Média 69 43 34 41 27 216
Alta 60 39 34 28 23 186

Essa tabela mostra mostra claramente que as crianças mais pobres estão obtendo sucesso na sala de aula. Observando a última coluna (“Total”), no período indicado os alunos pobres aprenderam mais que os alunos ricos em sala de aula, com 191 contra 186 pontos. Ficaram atrás das crianças de classe média por pequena diferença.

Se alunos pobres aprendem mais que os alunos ricos durante o ano letivo, o que explica a “a disparidade de aprendizado”?

A resposta vai ser encontrada ao se analisar o aprendizado dos alunos nas férias escolares.

Aprendizado durante o período de férias

Classe 1a série 2a série 3a série 4a série Total
Baixa -3,67 -1,70 2,74 2,89 0,26
Média -3,11 4,18 3,68 2,34 7,09
Alta 15,38 9,22 14,51 13,38 52,49

Olhe a coluna que mede o que aconteceu durante as férias da 1a série. As crianças da classe alta retornaram após as férias com suas habilidades em leitura aumentadas em mais de 15 pontos. As mais pobres voltaram das férias e suas notas em leitura caíram quase 4 pontos.

Agora vejamos a última coluna, com o total acumulado do progresso feito durante todas as férias. As notas de leitura das crianças mais pobres aumentaram somente 0,26 ponto, ou seja, no quesito habilidades de leitura elas não evoluiram praticamente nada. No caso das mais ricas, por outro lado, as notas subiram no total 52,49 pontos – explicando a diferença de aprendizado.

Conclusões do estudo

  1. Os alunos, pobres e ricos, estão aprendendo bastante durante o ano na escola. Os pobres mais que os ricos, inclusive.
  2. Praticamente toda a vantagem dos alunos ricos em relação aos pobres (no quesito leitura) resulta de diferenças em como os ricos aprendem quando não estão na escola – no período de férias.
  3. O autor conclui que mais tempo de aula e menos de férias tende a beneficiar principalmente aqueles que mais precisam da escola – os alunos pobres.
  4. Cálculos realizados pelo autor do estudo apontam que se as escolas funcionassem durante todo o ano os alunos ricos e pobres estariam no mesmo nível de matemática e leitura.

Por fim…

Seria interessante que uma pesquisa como essa fosse feita nas escolas da nossa cidade para efeito de comparação (fica aqui a dica para estudantes e pesquisadores da educação de nossas universidades). Tal estudo poderia servir como subsídio para definição de políticas públicas de educação.

Outros estudos corroboram essa tese. Trabalho do economista brasileiro Naercio Menezes Filho concluiu que uma das variáveis que mais afetam o desempenho de um aluno é o seu tempo de permanência na escola. Malcom Gladwell defende que o fato de passar mais tempo na escola é dos principais motivos para os países asiáticos estarem no topo dos raking em testes de aprendizado internacionais: na Coréia do Sul o ano letivo dura 220 dias e no Japão dura impressionantes 243 dias, muito mais do que nos Estados Unidos onde o período escolar dura cerca de 180 dias.

Esse estudo traz esperança para solução de um problema histórico do país: a desigualdade social. Sabe-se que a desigualdade é fortemente influenciada pela desigualdade na educação entre pobres e ricos. Então a sua solução passa por um salto na educação, especialmente a destinada aos mais pobres.

Todos esses estudos são fortes argumentos em defesa de mais dias letivos e mais tempo na escola para nossos alunos.

Que tal?

Thiago Silveira
@othiagosabe

Anúncios

Sobre othiagosabe

um conceito
Esse post foi publicado em Artigos & Opiniões. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s